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quinta-feira, 15 de março de 2012

A “Técnica” e a Técnica Vocal.

Por Angélica Menezes

Num passado não muito distante, havia cantores no Brasil de voz fenomenal. Não que hoje não haja. Mas o que tínhamos eram cantores que aprendiam, vamos pôr nesses termos, na raça. Existiam mestres, que por sua vez também aprenderam naqueles termos, com outros grandes mestres, pela experiência.

Isso quer dizer que, antigamente, um bom professor de canto era aquele cantor de voz impressionante, que você admirava e o queria como mestre. Se deu certo pra ele, e você sendo seu discípulo, automaticamente dará certo pra você. Como uma fórmula do sucesso, que é transmitida de mestre para discípulo. Quem dera...

Sem negar, nem de longe, o valor dessas grandes vozes, o tempo, como é esperado que aconteça, tratou de mudar o rumo das coisas. A coisa tendeu para o lado profissionalizante. A razão: surgiram os cursos superiores de música, que são razoavelmente recentes. Surgiram os cursos não superiores, mas igualmente profissionalizantes. O que temos hoje é uma incipiente geração de músicos, que, é lógico pensar, substituirá aquela antiga geração, que busca uma formação mais profissionalizante. Não se contentam em ser grandes vozes, mas querem ser grandes intérpretes, músicos, com conhecimento técnico-acadêmico da coisa toda, que querem ir além da “intuição” e da “técnica do erro-acerto”.

Antigamente (ainda há mestres assim, claro), o professor mostrava: “é assim!” e o aluno imitava. O que esse mestre lhe transmite é sua própria experiência, à maneira como ele percebe. O problema nisso é que o que dá certo para um pode não dar certo para outro, por uma razão muito simples: somos organismos, sensações, músculos, estruturas, aparelhos diferentes. Não existem dois instrumentos iguais. Assim, pensando na funcionalidade, seria mais desejado que o mestre lhe explicasse tecnicamente, organicamente, anatômica e fisiologicamente esse processo, para que o aluno, a partir das próprias sensações, possa descobrir seus próprios caminhos. Assim o cantor descobre e desenvolve sua ‘personalidade vocal’, sem ser mera imitação do mestre, aprendendo na base do erro-acerto, do “uma hora sai”.

Respiração costuma ser um processo difícil de aprender. O problema é que tudo depende dela, então, não tem jeito... No começo eu ouvia coisas do tipo: não deixa a costela fechar. E eu pensava: como assim? Lógico que vai fechar, meu pulmão está esvaziando! Mas vá lá, vamos tentar. E, como essa colocação dá margem a várias interpretações, a primeira coisa que se “experimenta” é segurar, forçar as costelas para fora. Depois de um tempo, e um pouco de conhecimento sobre fisiologia, descobri que “forçar” a manutenção da abertura das costelas, causa uma pressão subglótica que, além de tencionar laringe e pescoço, impedindo a livre passagem do ar, segura a voz numa ressonância baixa e “entuba” o timbre pelo consequente endurecimento do palato mole. Aí a voz perde projeção porque a ressonância é dificultada, e o que podia ser fácil, parece impossível. Não, definitivamente esse não era o caminho.

Há, portanto, dois caminhos: o da intuição, onde você vai experimentando aleatoriamente, sem uma real consciência do processo, e a experimentação consciente. O primeiro caminho pode demorar muito, e depende, em certa medida, de sorte. O segundo caminho pode ser mais rápido, uma vez que você usa a fisiologia a seu favor, conscientemente. No fim, o que se busca são aquelas tais sensações e o bom resultado, lógico. Mas, sabendo-se o que se está fazendo, melhor.

Por outro lado, a técnica pela técnica não é nada desejável. De nada servem as ferramentas se não se sabe o que fazer com elas. Existem atualmente excelentes profissionais, em nível técnico mesmo, com muito conhecimento de causa e muitíssimo bem formados (e informados). Mas uma coisa é fato: nenhum profissional, por melhor que seja, vai poder ensinar alguém a ser músico. No máximo ele vai lhe dar as ferramentas certas, de resto, cada um que construa sua própria identidade.

Enfim, o futuro nos reserva profissionais bem mais completos; que são músicos-cantores-atores, educadores, encenadores... A música segue no caminho de se tornar uma profissão (de fato) reconhecida. Num futuro bem próximo, nenhum músico ouvirá de um advogado ou engenheiro: mas você não trabalha? Só vamos torcer para a indústria fonográfica e a mídia pararem de atrapalhar.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Daqueles cuja força é bruta

Assisti recentemente um vídeo no Jornal da Globo, de um de seus colunistas cujo nome não é necessário citar, que me fez lembrar muito um texto de Adorno, que trata justamente sobre ‘O fetichismo na música e a regressão da audição’. A abertura da reportagem mostra um cantor lírico em atividade e logo depois o colunista diz que o microfone libertou-nos da “força bruta” para o que realmente importa: timbre e afinação.
Pergunto eu: será que o colunista tem a mínima noção do que significam timbre e afinação? E quando digo mínima noção o digo do ponto de vista fisiológico; porque eu – e penso que falo por todos os meus amigos de profissão – me senti profundamente ofendida por esse comentário desnecessário e infeliz.
Em primeiro lugar, Sr., vou lhe contar como funcionam as coisas por aqui, no reino das pessoas de “força bruta”. Todo o trabalho do cantor lírico, inclusive desse aí, do início da reportagem, é a busca (eterna) por um domínio fisiológico, técnico e musical onde os pilares são justamente o timbre e afinação. Dizer ‘voz’ e ‘timbre’, em certa medida, é pleonástico. Dizer que um cantor não busca por timbre e afinação é dizer que ele trabalha sua voz da mesma forma que um jornalista trabalha um violino, ou seja, de forma nula. Com isso quero explicar que a função principal da técnica vocal é justamente essa. Todo cantor, depois de um certo grau de desenvolvimento domina esses fatores tão básicos. Exceto os cantores ruins, claro. Mas esses mudam logo de carreira. Vão fazer música popular, por exemplo. Não desmerecendo a (boa) musica popular, mas não é preciso ser especialista para notar que a diferença estética é razoavelmente grande.
Não existe “força bruta” no canto lírico, Sr. Esse som todo é resultado de um intenso trabalho muscular e, como eu já disse, um domínio fisiológico. Se Pavarotti usasse “força bruta”, não cantaria meia Aida. Ouça! É uma verdadeira aula sobre música, para o Sr que é interessado no assunto.
Existem sim diferenças estéticas fundamentais entre uma coisa e outra, mas não é o aparato tecnológico que garante a qualidade. O sr. certamente sabe disso, pessoa esclarecida que é. Não é o microfone que torna João Gilberto o artista que é;nem está a bossa-nova condicionada à tecnologia, mas sim à fatores sócio-culturais. Tecnologia não garante talento, e é preciso dominar bem mais que um laptop para sê-lo. É inegável o papel da tecnologia na música e as muitas possibilidades que ela gerou, mas nem de longe isso dita padrões de qualidade.
Banalizar a profissão de músico dessa forma não é a melhor forma de esclarecer o público, se era essa a intenção da reportagem. Entendo o papel da mídia como disseminadora de “cultura” (cultura de massa), mas, se essa disseminação, além de não esclarecer, gera indivíduos não críticos, que são apenas consumidores de um bem – nesse caso a música – isso é banalização. É justamente aquilo que nos diz Adorno em seu famoso texto. Aliás, recomendo a leitura. Já que a mídia tem esse poder de alcance e essa “influência”, que esse poder seja usado de forma responsável. Sua reportagem ofende a classe musicista desse país; aqueles que são profissionais como o são nossos médicos, engenheiros, arquitetos, advogados. Ser músico é isso. Ou seria certo afirmar que todo curandeiro ou hipocondríaco é um médico. Eles também tem “bastante conhecimento” sobre o assuto.
Em nome de todos os profissionais de música desse país (os de fato; aqueles que fazem arte, não bens de consumo), quero deixar registrada nossa indignação, na esperança que haja mais bom senso, responsabilidade e, principalmente, respeito.

Subscrevo-me,


Angélica Menezes

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ouro pra música,lata pro futebol! Artigo(penta)musical.

Por Ulisses Montoni


Nas últimas semanas, acompanhei a transmissão dos jogos Pan-americanos, onde o Brasil se saiu muito bem, ganhando medalhas até em esportes onde não temos muita tradição. Muitos desses atletas quase ficaram de fora da competição porque não tinham patrocínio para treinar.Amigos músicos: isso faz vocês lembrarem de alguma coisa?


Esporte e arte são parecidos em muitos aspectos, e ambos sofrem com a falta de incentivo cultural e financeiro. Mas em se tratando de espírito de equipe,patriotismo e superação pessoal,esses atletas deram um banho em nós artistas...


Quase todos, eu diria... pois o glorificado,santificado,idolatrado(e patrocinado) futebol masculino,me fez sentir vontade de pedir minha cidadania Tanzaniana(pelo menos,de lá veio o Freddie Mercury,hehehe).Não sou amante de futebol,mas nessas ocasiões,tenho lá meu patriotismo recôndito,mas o que assisti foi tétrico.E mais tétrico ainda foi a explicação que deram pelo fracasso: “Ah,faltou um pouco mais de investimento financeiro no time...” MAIS investimento ainda? Se investissem na arte e na cultura 10% do que investem em futebol, todos nós, amigos artistas, poderíamos já estar tendo (gerúndio proposital) planos de “em qual país passarei o reveillon?” Pelo menos são meus planos...


Na última semana aconteceram dois grandes espetáculos em São Paulo: A ópera O Guarani, no Teatro São Pedro e o Réquiem de Verdi, no Municipal. Pelo fato de eu ainda não ter conseguido juntar grana suficiente para meu reveillon em Paris, precisei trabalhar e acabei não assistindo a nenhum desses espetáculos. Soube pelos amigos e colegas,participantes do Réquiem e do Guarani,que ambos foram um sucesso,e acredito mesmo que tenham sido.Ouvi também a revolta de alguns por causa de críticas meio ácidas(redundância?). Da minha parte, como artista, cantor e escritor (“Humm, ele se acha!”, diriam os críticos), saio em defesa da minha classe, imbuído pelo sentimento pan-americano de espírito de equipe, onde todos se defendem, por isso vencem a si próprios e aos adversários.


Como não assisti ao Réquiem, não posso opinar sobre os solistas internacionais. Mas se realmente não estavam à altura da obra,do teatro,da orquestra e do coro que os acompanharam,meus amigos,fiquem tranqüilos! A mediocridade até pode ser patrocinada, mas nunca escondida! Isso fica nítido, sempre. Vide nossos meninos de ouro(?) do futebol,ao representar esta pátria de (marias)chuteiras...


Mas fora tudo isso, se considerarmos o fato de que em uma única semana, duas obras maravilhosas foram apresentadas em São Paulo, com elenco 99% nacional, já é algo acontecendo. Pequeno,mas é algo.E parabéns aos que participaram desses espetáculos!


Deixo aqui meu abraço a todos os amigos e colegas dos Teatros São Pedro e Municipal, que fizeram parte desses dois eventos. A despeito de qualquer crítica não tão construtiva, quem sente o prazer imenso de subir no palco e cantar obras maravilhosas somos nós, artistas sem chuteiras, mas felizes!


E uma última notícia: Ouvi falar que vão dobrar o salário do Neymar!(É que agora ele é pai, né? Precisa sustentar a família...)





Ulisses Montoni é tenor,ator,não sabe jogar futebol,acha o Neymar ridículo e escreve sobre música de um ponto de vista pessoal,mas sempre focado na razão e no bom senso.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O ÚLTIMO GRANDE CRÍTICO

Quando eu cursava o bacharelado, havia – ainda há – a necessidade de se cumprir certa carga horária de atividades programadas, que incluíam várias coisas; assistir a concertos e fazer um relatório, inclusive. Escrevíamos três ou quatro parágrafos meio inventados sobre um concerto assistido meses antes, um dia antes de ter que entregar os tais relatórios para o orientador assinar.
Depois de um tempo de “prática”, descobre-se que o trabalho fica simples, pois há frases e expressões que são padrões, como uma fórmula. Você só precisava mudar as datas, os nomes, a orquestra, e dava certo! Então usávamos nossas frases-modelo: “a orquestra soou bem, apesar de alguns desencontros” (é um generalismo óbvio, dá pra se dizer isso de qualquer concerto); “a soprano de voz brilhante (o que é absolutamente redundante) tinha um timbre agradável (ou não), voz potente (ou não), preencheu nossos ouvidos com sua técnica e fraseado perfeitos (ou não). São termos genéricos, expressões vazias de significado, que não dizem absolutamente.
Assim, caros leitores, ofereço-vos uma fórmula secreta, que fará com que todos nos tornemos críticos de arte! É só escolher o tema.
1. Para falar bem, use adjetivos bonitos, como nos romances de Paulo Coelho, do tipo: encantador, lindo, bonito, brilhante, e por aí vai.
2. Para falar mal, vale o modelo acima, é só usar os antônimos.
3. Para falar da técnica (aíiiiii já são termos mais técnicos. ): use palavras como potente, abafado, esquisito, instável, sonoro, “não entendo”, pronúncia, gritado etc.
4. Para falar da orquestra (isso é muito fácil): use termos como bem, na mão do maestro, desencontro, preparada, enfim. Use a criatividade! O que vale é o jogo de palavras.
Sendo assim, vou dar o primeiro passo e fazer uma bela crítica sobre o concerto X, com a orquestra Y, e o...sei lá...baixo-barítono W. Lá vai!


"Era uma noite calma e constelada. Nossos ânimos ansiosos na sala de espetáculo barulhenta e comovida. Ouve-se os três sinais, entra o maestro, todos se ajeitam em seus lugares, dão as últimas tossidas e pigarreadas, e a orquestra inicia a abertura. Alguns desencontros, mas logo o maestro põe ordem na casa e tudo flui bem até o fim da ópera.(isso porque você não conhece a música e, lógico, não vai nunca perceber que o trompete não tocou aquele tema que é SÓ o leitmotiv, os violinos não estavam juntos e tinha um violoncelo desafinado. Não vai perceber que as flautas não fizeram aquela passagem que está escrita. Mas continuemos. Os adjetivos é que são fundamentais, quem se importa com o trompete?).
A soprano (ou O soprano, se você ainda estiver na época dos castratti), nos brinda com seu belo timbre, frases perfeitas, interpretação maravilhosa, uma técnica que se assemelha a da grande Maria Callas (faça de conta que você foi amigo e instrutor vocal da Callas), uma grande diva brasileira. O tenor tinha uma voz metálica, pronúncia boa, preencheu a sala e nossos ouvidos, quase com violência. Interpretação boa. Presença boa. O barítono não. Esse tinha a voz muito escura, seus graves eram gritados, sua pronúncia era ruim. Na verdade acho que era baixo. Ou barítono. Não presta para o papel. Tinha que fazer outra coisa da vida (já chuta o balde porque você não vai saber mesmo explicar o que você quer dizer com nada disso. Falta alguma coisa? Ah, claro! A música! afinal, você é praticamente um Brahms e tem plena certeza de que pode julgar a composição alheia).
A música era fraca e feia (e fica por aqui. É até onde vai seu conhecimento vasto sobre composição, harmonia, contraponto, contexto histórico e estética).

E está pronto! Não precisa de parágrafo de conclusão não porque isso é coisa de acadêmico. Você é um profissional! Nem precisa ter fundamento o que você diz. Afinal, qualquer um pode ser músico. Nem profissão é! Se você ouve e gosta de música, pronto! Já pode começar a escrever.

Lendo vez ou outra certas “críticas” publicadas no “meio musical”, percebo que elas se assemelham muito aos nossos famigerados “relatórios de concerto”: não dizem absolutamente nada de realmente válido e são vazias de significado. Tem dois lados bons nisso: o primeiro é que ninguém do meio musical profissional leva isso a sério; o segundo é que a leitura rende alguns bons minutos de diversão.
Mário de Andrade foi, certamente, uma das mentes mais brilhantes do nosso século XX. Poeta, escritor, músico, formulador do pensamento musical nacionalista e crítico musical. No mais absoluto significado que o termo possa ter. Autor de importantes tratados sobre a música brasileira, pesquisador do folclore, é referência quando se trata de música no Brasil.
Faz-se necessário desde já, esclarecer a diferença entre um crítico de arte e alguém que gosta de dar “sua opinião”. A primeira e substancial diferença, é que um crítico de arte é, necessariamente, um especialista. Um conhecedor profundo do assunto, um argumentador com conteúdo. Stanislavski diz, em seu Manual do ator, que qualquer um pode julgar desfavoravelmente. Para elogiar, porém, é preciso ser um especialista. No mesmo livro, ele fala do papel, por vezes irresponsável de um “crítico de arte”; quão nociva pode ser uma crítica desconstrutiva - seja ela boa ou ruim - e como isso pode afetar o artista de uma forma por vezes irremediável. Em outras palavras: ser crítico requer, além de substância, responsabilidade e respeito pelo trabalho.
É um paradoxo pensar, por exemplo, que um crítico de arte não seja artista, ou que o seja na teoria, se é que isso é possível. O primeiro indício de ignorância está no vocabulário; um crítico usaria as palavras com propriedade, como faz Mário de Andrade ao se referir ao descuido dos compositores brasileiros em relação à prosódia; argumentando, exemplificando e sugerindo (Aspectos da Música Brasileira, 1939). Um curioso escolheria termos chulos, adjetivos sem significação ou justificação, apenas para expressar sua opinião e para “ficar bonito”, tal qual um poema de novela da rede globo. Nem mesmo se daria o trabalho de pesquisar o que é prosódia. Um crítico sério ouviria a Serenade, de Britten, admirando a bela parte escrita pelo compositor para trompa natural, e a habilidade do instrumentista em executá-lo, dominando o instrumento sem válvulas. Um ‘apreciador’ diria que o trompista tocou desafinado. Um crítico sério atentaria, naquela voz retumbante, que, apesar de retumbante, não se entendia a melodia, nem o ritmo, nem a letra; que aquele agudo poderoso só o foi porque estava quase uma 3ªm abaixo do que devia ser. O “apreciador” pararia no retumbante.
Em pensar que estudamos tanto para chegarmos a um nível ínfimo de conhecimento, sem nenhuma pretensão de, um dia, saber tudo, e para que? Basta ser um apreciador. Passar horas ouvindo ao invés de estudando. E isso faz de você um profissional da arte. Simples assim. De minha parte, acho que vou mudar de carreira. Essa coisa de música não está com nada! Qualquer um pode ser músico agora, é só ouvir uns cd’s, assistir uns dvd’s e frequentar as salas de espetáculo da cidade. Decidi que vou virar crítica, já que descobri a fórmula secreta. Só não decidi ainda sobre o que. Aceito sugestões.

Pobre Mário de Andrade...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Geração coca-cola

Por Angélica Menezes

Quando pensamos em música erudita brasileira, não podemos dissociar da idéia de “tradição”. Que tradição temos nós, um país tomado de assalto, colonizado, invadido, modelado, mas nem por isso cuidado? Como comparar a nossa pseudo “tradição”, desse país de pouco mais de 500 anos, àquela que nasceu na antiguidade, num continente – diga-se de passagem – distante daqui?
Pois eu digo que há aqui quem faça as coisas acontecerem. O que é preciso entender, é que nossa história é recente demais para esperar a mesma magnitude da música ocidental, que tem três mil anos de história. Claro que há diversos fatores envolvidos: valores culturais, sociais, econômicos, étnicos e – pelo menos no nosso caso – principalmente políticos. Falta vontade política? Se falta! Falta competência administrativa? Melhor não comentar. Falta vontade artística? As vezes sim. Mas nós somos a nova geração, e, olhando algumas décadas no passado, observamos algumas diferenças fundamentais.
Nós pertencemos a uma geração que não tem medo de ousar, de aprender, de estar aberto a tudo que vai nos tornar profissionais, artistas e seres humanos melhores. Nós nos matamos para fazer curso superior (e nos matamos mais ainda para conseguir sair dele dignamente), para pagar aulas caras com aquele professor fantástico; arrancamos os cabelos com pilhas de métodos de solfejo, harmonia, downloads e mais downloads de repertório; pilhas de livros, chamados carinhosamente de “bibliografia básica”. Até aprendemos contraponto! Para que? Eu não sei, mas pelo menos consigo apreciar a genialidade de um Claudio Monteverdi. Isso garante profissionalismo? De jeito nenhum. O que garante é a vontade, é saber o que fazer com essas ferramentas, é não ter medo de aprender, é nunca achar que chegou à perfeição.
São os parâmetros que mudam. E por isso digo que estamos no caminho certo. A passos de tartaruga, mas vamos abrindo nossos espaços e nossos caminhos. Antes bastava ter um vozeirão de Maria Callas ou de Caruso, e aprender um papel ouvindo o cd (ou melhor, LP). Hoje, mesmo as vozes em formação se emprenham em aprender, não só a ser músico, mas a ser artista; a atuar, além de cantar. É técnica aliada à emoção, já dizia Stanislasvki. O cantor do futuro se entrega à obra e ao personagem, não tem medo de se abandonar em nome deles. Ele entende que é em nome da obra que ele está ali, e não em nome de si próprio. Estamos mais exigentes enquanto platéia, inclusive; começamos a estabelecer outros padrões. Os primeiros passos já foram dados. É unanime? Quiséramos nós...Ainda existe muito cantor lírico que é só isso. Cantor. Engraçado, porque ópera é teatro. Então, ser cantor de ópera significa também ser ator. Da minha parte, acredito piamente na lei da Seleção Natural...
Cantores que atuam, músicos que não se contentam em ser “mais ou menos”. Esse é o futuro de nossa música erudita, essa é a geração coca-cola. Artistas mais bem formados – e informados – não se deixam explorar, e precisam de encenadores capazes de acompanhar tal crescimento. Artistas e encenadores unidos pela obra levam à espetáculos que precisam de espaço, apoio e investimento adequado. Tudo acontece em várias esferas. Como diz o ditado, uma andorinha só não faz verão. E é aí que empacamos. Nem todas as esferas estão no mesmo ritmo.
Politicagem a parte, começam a se ditar novos parâmetros. E quem empacar no meio do caminho, será atropelado! Três vivas à música e ao profissional de música brasileiros!

domingo, 7 de novembro de 2010

A Síndrome

Por Angélica Menezes

Dia desses levei aos meus alunos trechos de Carmen e A Flauta Mágica. Nosso trabalho era traçar o perfil das personagens Carmen e Rainha da noite, observando como o corpo das cantoras-atrizes relacionava-se ao personagem que interpretavam. Logo nos primeiros minutos, um aluno – a grande maioria deles nunca tinha visto ópera, nem mesmo pela TV – pergunta: mas professora, é música ou é teatro? Não precisou muito para descobrirem que ópera é efetivamente a junção dos dois. Obrigatória e inseparavelmente.
É triste pensar que muitos de nossos talentosos representantes da cena lírica não entendam isso, e que ainda hoje somos obrigados a ouvir por aí: ah, mas eu não sou ator, sou cantor. Então tá, querido (a), me diz uma coisa: você tá interpretando algum personagem, ou é só você mesmo? Porque se for só isso então não quero, não. Me chama de novo quando for cantar com piano algum ciclo aí ou um recital de música brasileira, que assim nem preciso me esforçar pra entender o que está dizendo (ou não, depende da dicção...). Se é opera eu quero ver a personagem. E nem me venha com esse super agudo brilhante e “coberto” feito por um corpo inexistente em cena, que podia ser uma porta ou uma árvore, e ia dar no mesmo. Ai, se as árvores cantassem...ia ter muito cantor lírico sem emprego.
Penso, porém, que uma nova geração de cantatores e cantatrizes vem surgindo. Há tempos que, na Europa, as tradicionais montagens cantor-estátua dão lugar a montagens onde o trabalho corporal e cênico do cantor é tão importante quanto o trabalho vocal. E cada vez mais cresce a consciência do cantor em relação a isso (graças!). Basta lembrar que os grandes encenadores do século XX utilizaram-se da ópera como laboratório. Para Craig, o verdadeiro teatro incluía música; Ronconi teve sua trajetória marcada pela encenação de óperas; Wieland Wagner dirigiu montagens de Richard Wagner. Para o teatro do século XX, a utilização do material sonoro unifica todos os elementos do espetáculo. É claro pensar que a ópera seja, então, o laboratório perfeito. Nesse sentido cabe relacionar a importância do trabalho de Grotowski, em que o teatro acontece no corpo do ator, e todo o resto é acessório. Logicamente que, para isso, o ator precisa ter consciência do seu corpo.
A ópera já nasceu unindo drama e música; desde as aspirações da Camerata Bardi, inspiradas nos melodramas gregos. De Monteverdi a Wagner, o que vemos é um espetáculo onde a música é o meio sonoro utilizado, mas a cena está lá: personagens, suas histórias, enredo, ambiente, tempo etc. A pergunta que não quer calar é: por que (POR QUE??!!) ainda há cantores que se orgulham em abrir a boca e dizer orgulhosa, porém ignorantemente, que não é ator, e sim cantor? É a síndrome do cantor-estátua-minha-voz-me-basta. Será que isso tem cura?
Particularmente me incomodam cada vez mais essas montagens tão chulas, nesse sentido. O que vemos são cantores (e público, lógico) delirando em cadências maravilhosas que terminam num do5, mas onde a atuação desse mesmo cantor se limita a exibicionismo vocal, ou – o que é bem pior – a uma representação patética, que nada mais é que uma colagem de gestos e ações prontas, copiadas das dezenas de versões que os cantores assistem antes de “comporem seus personagens”, e vendidas como autênticas interpretações. Hein? Autênticas?
A esse respeito, voltemo-nos a W. Wagner, aquele encenador, ou como gostam de chamar alguns entendidos do assunto, regisseur, que afirma que “a representação do ator-cantor baseia-se mais na atitude signo, no gesto único carregado de um máximo de eficiência expressiva, do que num movimento cuja agitação não consegue camuflar os estereótipos” (ROUBINE, J. J. A linguagem da encenação teatral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1998, pág. 148). E bota estereótipo nisso!
Mas o buraco é bem mais embaixo. Estamos cercados de regisseures que não fazem idéia de como lidar com essa coisa complexa que é montar uma ópera, e, na ausência dessa idéia, ficamos eternamente presos ao “tradicional”, ou seja lá que nome tenha. É preciso, antes de tudo, que haja diretores conscientes e dispostos a mudar a situação, e tirar essas montagens dessa estagnação cênica na qual nos encontramos. Não que não haja, mas é preciso que isso se torne um padrão! Eles também precisam tratar o cantor como ator, sim, e não se intimidar pelo ego de muitos deles (e bota ego nisso!).
Enfim, amigos cantatores, é preciso que comecemos a mudar nossas mentes nesse sentido, e nos convencermos de que nossas vozes não nos basta, quando o assunto é interpretação. A ação é fundamental, e toda ação começa no corpo. Vamos nos livrar da síndrome do cantor-estátua-minha-voz-me-basta!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Jovens formiguinhas


Por Angélica Menezes

Parafraseando Oscar Wilde, não somos jovens o bastante para saber tudo. Penso que esse é o sentimento que nos move a todos em busca do crescimento, em todos os sentidos possíveis.

Repensando nossa vida profissional, algumas questões vêm logo à mente, e não há meios de fugir delas. Uma é no sentido pessoal: que tipo de profissional eu sou, e o que faço para ser um profissional cada vez melhor? Outra é no sentido geral: o que fazemos – todos nós – pelo nosso meio profissional; quanto realmente estamos unidos trabalhando por um bem comum? Outra ainda, e talvez mais importante, como se mede o nosso amor à arte que praticamos? Como pesar o que tem maior ou menor relevância na construção desse caminho? E uma outra questão é a visão do outro: como o outro vê o meu trabalho, o seu trabalho e o nosso trabalho? Até que ponto nós, individualmente, trabalhamos juntos? Será que depende mais de mim do que do outro? Ou a proporção é a mesma? Valendo-me dessa vez da história da formiguinha, que trabalhou junto com suas companheiras o verão inteiro para não morrerem de fome no inverno, e do gafanhoto, que nada fez e no fim dependeu da ajuda das formigas para não morrer, fico pensando no papel que ocupamos: somos formiga ou gafanhoto?

Em qualquer profissão, experiência é algo que se constrói gradativamente; somente o tempo poderá devolver o que investimos. Logicamente, esse processo se faz de escolhas. Escolhas que nos levam aos mais diversos caminhos, bons ou ruins, e que a própria vida nos ensina a selecionar o que não serve. Caminhos esses fáceis ou difíceis. Não é só errando que se aprende; o aprendizado pode sim ser prazeroso, pode vir do (e com o) sucesso, sem termos que necessariamente sofrer por isso. Mas o mais importante é ousar. É estar disponível. É aceitar que nunca seremos jovens o bastante para sabermos tudo, e que uma formiguinha só não faz inverno. É trabalhar por amor, antes de trabalhar por dinheiro, mas nem por isso se deixar explorar. Às vezes o pagamento é muito maior do que qualquer moeda pode pagar: é aquela sensação de “dei o melhor de mim, e valeu muito a pena”. É nos abraçarmos e deixar que as lágrimas rolem de emoção por ver quanto de nossa energia espalhamos para o mundo, quanto devolvemos a ele do que a vida generosamente nos dá, e que marca estamos deixando nele.

Entre sermos jovens, formigas ou gafanhotos, sejamos então não tão jovens, mas eternamente aprendizes, e eternamente formigas.

Para onde vai o Teatro Municipal?

Títulos possíveis:
Para onde vai o Teatro Municipal?
Ou Samba de criolo doido, ou ainda Salve-se quem puder


Por Angélica Mz

O TMSP é uma verdadeira casa da mãe Joana. O maestro Neschling só põe em palavras os pensamentos de todos nós músicos, que presenciamos a cena lírica brasileira afundar cada vez mais por absoluta incompetência administrativa. Com o devido respeito que permite a minha educação à diretora do TMSP, existe uma singela diferença entre Villa-Lobos e Alban Berg. Além disso, alguém que admite sua ignorância musical faz o que no posto de diretora de uma casa de ópera?

Os músicos, excelentes profissionais que há anos se dedicam àquele teatro, mereciam o mínimo de respeito, mereciam ser ouvidos, ter sua opinião considerada enquanto profissionais e verdadeiros responsáveis pelo sucesso ou não das temporadas do Teatro. Ao contrário, estão calados, sem direitos que lhes garantam o poder de manifestar-se, à mercê de administrações incompetentes, e a anos e anos de descaso com um teatro tão importante quanto é o paulista. Quando é que se compreenderá que música se faz com músicos, em todos os níveis, inclusive administrativos? Só nos resta torcer para que essa famigerada 'fundação' aconteça para o bem, para tornar essa casa ideal tanto para seu público quanto para seus profissionais, e não como gabinete de empregos para parentes de políticos.

Não adianta vir a Sr diretora nos convencer da maravilha administrativa que é o TM e do que internamente está sendo feito, se o público há meses não assiste uma montagem sequer; se sua orquestra enfrenta uma crise interna e se seu coro termina o ano cantando “pinheirinhos que alegria” na Sala São Paulo...Onde está tal brilhantismo? Na falta de direitos trabalhistas dos músicos? Na ausência de temporada, de organização, de seriedade? Ou nos cargos administrativos ocupados por ‘profissionais’ que acham que tocar Berg é o mesmo que tocar Villa-Lobos?

Por uma administração musical para o TMSP!Pela união da classe musicista, que cada vez mais necessita unir forças para transformar a realidade de nossa vida artística!

http://semibreves.wordpress.com/2010/06/17/repensando-o-teatro-municipal/#comment-107

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A MUDANÇA QUE VEM COM O EXEMPLO

por Fernando Ribeiro

Há um vídeo muito interessante no YouTube* que demonstra como é forte o poder do exemplo. Nele, várias crianças imitam seus pais em diversas situações, destacando como muitas vezes é poderosa e marcante a influência de nossas ações sobre os outros. Esse tipo de comprovação me dá respaldo e convicção de que o mesmo é aplicável nas nossas atitudes enquanto profissionais do canto. Além dos diálogos e mobilizações, há muito poder na forma como nos posicionamos frente às inúmeras situações com as quais nos defrontamos no dia-a-dia da nossa profissão.

Muitos já passaram por esta situação: você recebe um telefonema e Fulano, do outro lado da linha, o convida para cantar em um casamento.

E só.

Nenhuma menção sobre valores, repertório, etc... E o pior é que, muitas vezes, o cantor aceita assim mesmo, às cegas. Em que realidade isso pode soar plausível? Nem em universo alternativo de gibi de super-herói!

Existe um modo de se proceder que herdamos/aprendemos/assimilamos das outras gerações, é fato (olha aí a história do exemplo!). Acredito, porém, que se desejamos mudanças para melhor, é necessário assumir conscientemente essa mudança, com tudo e de bom e de ruim que estiver associado a isto. O que é assumir conscientemente? É mudar de conduta não tanto por uma imposição exterior, mas principalmente por um desejo pessoal. É não influenciar-se pelo Zeca Pagodinho e seu “deixa a vida me levar”. Parece-me razoável inferir que uma ideia assim, propagada e experimentada por cada um, só pode gerar um círculo virtuoso.

Recentemente tornei a ler um livro de um pensador francês que admiro muito, chamado André Comte-Sponville. Lá, ele fala sobre como nutrir esperanças nos afasta mais ainda de viver uma vida feliz. Acertadamente, o título da obra em questão é A Felicidade, desesperadamente, ou seja, sem esperar por nada que esteja além das nossas possibilidades. E como chegar a isto, ou o que isto pode ter a ver com o assunto sobre o qual falei até agora? Bem, ele afirma que não dá pra simplesmente abandonar este velho hábito: é algo que faz parte da condição humana. No entanto, não se trata disso, de procurar meios de eliminar essa parte ruim de nosso aspecto. Seria mais no sentido de desenvolver, cultivar outras características positivas. Diz ele (o cito de memória): no plano teórico, trata-se de crer um pouco menos, e conhecer um pouco mais. No plano prático, político, trata-se de esperar um pouco menos e agir um pouco mais. No plano afetivo, trata-se de esperar um pouco menos, e amar melhor.

Conhecer, agir, amar: que esta seja uma divisa à qual nós cantores possamos sempre nos dirigir.

* http://www.youtube.com/watch?v=Xcdx3YrFBVE



Fernando Ribeiro é integrante do Voz Ativa Madrigal, do Núcleo Universitário de Ópera e estudante do último ano do bacharelado em Canto Lírico da Universidade de São Paulo. Contato: fhr1980@yahoo.com.br

terça-feira, 8 de junho de 2010

Grupo de discussões do Profissão: Cantor

Grupo de discussões do Profissão:cantor:

É so mandar um e-mail (em branco mesmo) para profissaocantor-subscribe@yahoogroups.com, ou entrar por uma conta do yahoo. Entrem! Esse será mais um canal de comunicação.